Resenha: "O ano em que morri em Nova York", de Milly Lacombe

O ano em que morri em Nova York
Milly Lacombe
Editora Planeta
256 páginas
Romance de estreia de uma das principais ativistas LGBTT do país, numa mistura de amor a si próprio A protagonista deste romance vai do paraíso ao inferno em poucas páginas. Casada com a mulher que ama, ela suspeita de que tenha sido traída durante uma de suas viagens de negócios. A angústia de não saber o que se passa, o medo de perguntar, desconfiança e a dúvida, que nunca tiveram espaço na relação – considerada perfeita pelos amigos –, agora rondam o casal. Mas será mesmo que a traição existiu? Ou era o amor que estava minguando? O ano em que morri em Nova York não é só a história de um casamento desfeito por conta de uma suposta traição. Estas páginas trazem a trajetória de uma mulher desde a sua redescoberta até o doloroso rompimento. Uma mulher que assume sua orientação sexual tardiamente, e que luta para fazer a família entender, os amigos apoiarem e os colegas de trabalho aceitarem. Jornalista que se tornou ativista das causas LGBTT, Milly Lacombe cria neste seu primeiro romance, com viés autobiográfico, uma história densa, mas aliviada pelo humor. Um livro que é também uma viagem de autoconhecimento, e, acima de tudo, uma história de amor a si próprio.

Essa é uma história sobre autoconhecimento e acima de tudo, a descoberta de que devemos primeiramente nos amar, para só depois de transbordarmos em amor próprio amarmos verdadeiramente outra pessoa. "O ano em que morri em Nova York", conta a história de uma mulher adulta e lésbica, sempre segura de si e vinda de muitos relacionamentos que nunca a fizeram mal algum, muito pelo contrário. Ela considerava-se atraente e conquistadora, do tipo que sai de qualquer relacionamento bem e se possível com outro engatilhado. Porém, a autoestima e amor próprio da protagonista vão embora quando a suspeita de uma traição começa a assombrá-la.



Vivendo um relacionamento lésbico de muitíssimos anos com Tereza, morando em Nova York e vivendo dos frilas como escritora, ela recebe a notícia de que sua ex namorada - e então melhor amiga, Simone - está com câncer. A notícia abalou seu psicológico e estando sozinha, pois Tereza viajava à trabalho, mergulhou em um mundo de dor e desconfiança, tornando-se insegura e incapaz de fazer algo sem chorar. O problema é que o peso da possível traição não ficou apenas em sua cabeça e suas atitudes - antigamente tão segura de si - modificaram-se e aquilo acabou deixando o relacionamento cada vez mais complicado de engolir, para ambas. Vendo o relacionamento antes tão firme e cheio de amor transformar-se em dúvidas e insegurança, ela resolve voltar ao Brasil.

Se meu instinto animal era o de jamais deixar você, se você era necessidade, então seria natural supor que, vivendo como escrava desse instinto, eu exerceria minha liberdade agindo de outra forma que não fosse aceitando a necessidade de você, e isso significaria ter a coragem de tirar meus livros da estante, minhas roupas do armário, colocar tudo em malas e ir embora. Agir por dever e contra meus instintos,
essa era uma experiência nova pra mim.

Ao encontrar-se novamente em seu país, ela percebe quão perdida está. Com pouquíssimo dinheiro, sofrendo com o fim de algo que parecia eterno e com saudade da vida que vivia, foi convencida pela amiga Paola a viver uma experiência de autoconhecimento na Amazônia, onde um grupo de pessoas se reuniria para fazer ioga e participar de rituais curativos e que no final garantia a resposta para uma pergunta que a torturava "quem sou eu?". Junto com Paola e outras pessoas que foram participar das atividades, ela vive experiências malucas e ao mesmo tempo emocionantes e pouco a pouco vai retornando a sentir-se ela mesma. Descobrindo, inclusive, como a influência do pai em sua vida a transformava em uma pessoa sem ambições e presa a opinião dos outros.



O livro aborda assuntos que foram novos pra mim, como a existência de grupos que buscam o autoconhecimento e rituais místicos que buscam promover um encontro de corpo e alma. Foi uma leitura um pouco difícil pra mim, pois possuiu pouquíssimos diálogos e é contado em primeira pessoa, de forma a parecer um diálogo só - gigante - entre a autora e o leitor, o que pra mim foi um ponto negativo. Porém, a autora trás muitos temas interessantes e deixa muitas reflexões pra todos que têm um relacionamento amoroso ou que buscam um. Principalmente, a importância de nos conhecermos e nos amarmos em primeiro lugar, para só então conhecermos e amarmos o outro.

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Livro oferecido através de parceria com a Editora.

  1. Parece ser um livro bem forte e interessante, gostei da indicação. Eu já tinha visto o livro na livraria, mas não sabia do que se tratava. Um abraço!

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    1. Hey Camila!
      Fico feliz que tenha gostado. Se trata realmente de uma temática fortíssima, que me deixou cheia de reflexões. Todo mundo que está ou pretende entrar em um relacionamento precisa aprender um pouco do que a personagem aprendeu.
      Um beijo e obrigada pelo seu comentário!

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