Resenha: "Fera", de Brie Spangler

24 Jun 2017

Fera
Brie Spangler
Editora Seguinte, 2017
384 páginas
Dylan não é como a maior parte dos garotos de quinze anos. Ele é corpulento, tem quase dois metros de altura e tantos pelos no corpo que acabou ganhando o apelido de Fera na escola. Quando ele conhece Jamie, em uma sessão de terapia em grupo para adolescentes, se apaixona quase instantaneamente. Ela é linda, engraçada, inteligente e, ao contrário de todas as pessoas de sua idade, parece não se importar nem um pouco com a aparência dele.

O que Dylan não sabe de início, porém, é que Jamie também não é como a maioria das garotas de quinze anos - ela é transgênera, ou seja, se identifica com o gênero feminino, mas foi designada com o sexo masculino ao nascer. Agora Dylan vai ter que decidir entre esconder seus sentimentos por medo do que os outros podem pensar ou enfrentar seus preconceitos e seguir seu coração.
Fera foi um dos poucos que resolvi ler a sinopse, apesar de uma capa linda, precisava de um fator mais importante do que fotos rentáveis numa resenha, precisava de um conteúdo que me proporcionasse de alguma forma crescimento. Ao ler a sinopse descobri que se trata de um livro sobre aceitação, orientação sexual e gênero, me apaixonei pela ideia de ler mais um livro com a temática LGBTQA e por mais que sejam livros que não me satisfazem cem por cento, sinto que eles me permitem conhecer um pouco mais e conhecer outras histórias, como a de Jamie, uma mulher trans não operada.




Fera é em parte um livro que contém transfobia e isso é até normal (não estou dizendo que apoio, por isso continue lendo a resenha). Somos inseridos através dos olhos de um menino de 15 anos cis dentro de um grupo fechado de dois amigos, JP e a própria mãe do garoto, que também é preconceituosa. Dylan, nosso protagonista, mostra o seu preconceito na metade do livro, ao descobrir que Jamie nasceu como menino.

Pego totalmente de surpresa, por algo desconhecido, o personagem só tende fazer uma coisa: recuar. Porque, infelizmente, estamos inseridos numa sociedade machista e binária, ele cresceu gostando de garotas e acha que gostar de uma trans será totalmente contra seus próprios valores. Quando digo que é normal, quero dizer que todos nós passamos por uma fase de aceitação, compreensão e desconstrução; o que, aliás, acontece todos os dias desde que permitimos que essas mudanças sejam feitas.

O romance fala sobre sentimento além da aparência física e gosto muito do modo como Brie Spangler abordou isso, ela insere em sua trama um personagem esteticamente feio e uma personagem trans, ambos se apaixonam um pelo outro e os paradigmas, se assim posso dizer, são quebrados quando você deixa de levar em consideração que o corpo é a peça fundamental da vida; ao transcender do físico para o espiritual você percebe que todos nós somos movidos a apenas uma coisa: amor.




Infelizmente em Fera temos apenas a perspectiva de Dylan, creio que isso tenha deixado aquela vontade saber como é a vida de Jamie, que é contada em poucos versos onde ela explica a relação com os pais e na escola, algo bem básico que faz com que o leitor queira conhecer mais a personagem, creio que capítulos intercalando entre os personagens durante a narrativa seria bem-vindo e aceito. permitindo que a leitura fosse, sim, mais prazerosa. 

Apesar da narrativa ser evidenciada em Dylan, conseguimos ter noção dos diversos problemas dos personagens secundários, como o melhor amigo e os problemas familiares ou o modo com a mãe de Jamie se preocupada com ela em relação ao mundo e até mesmo como a proteção da própria mãe de Dylan tira a privacidade do garoto. Então, não há um único problema nesta história: a autora se preocupa em abordar diversos momentos (difíceis e bons) que acontecem na vida dos adolescentes e como isso interfere em quem eles serão futuramente. 





Recomendo muito a leitura desse livro para pessoas que não entendem muito sobre transexualização ou para qualquer outro com a cabeça aberta para entender um pouco mais sobre identidade de gênero e sexualidade. Enquanto traz à tona questões difíceis como dilemas existenciais, preconceito e bullying, o livro também fala de forma esperançosa e leve sobre amizade, descobertas e autoaceitação. 

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