Resenha: "O amor dos homens avulsos", de Victor Heringer

O amor dos homens avulsos
Victor Heringer
Companhia das Letras, 2016
160 páginas
No calor de um subúrbio carioca, um garoto cresce em meio a partidas de futebol, conversas sobre terreiros e o passado de seu pai, um médico na década de 1970. Na adolescência, ele recebe em casa um menino apadrinhado de seu pai, que morre tempos depois num episódio de agressão. O garoto cresce e esse passado o assombra diariamente, ditando os rumos de sua vida. Essa história, aparentemente banal, é desenvolvida com maestria ficcional e grandeza quase machadiana por Victor Heringer. Dono de uma prosa fluente e maleável, além de uma visão derrisória da vida, o autor demonstra pleno domínio na construção de cenas e personagens. E emociona o leitor com sua delicada percepção da realidade.
Tem dia que eu acordo e pego as recomendações dos outros e coloco na lista de desejados, assim, sem saber o que se fala, do que se trata e se eu vou gostar. Num desses dias que acordo anotado recomendações, Paulo joga sua recomendação na rede social do pássaro e eu anoto na lista. Não tardou o livro chegar na minha casa, nem para começar a ler, nem para terminar de ler, tardou mesmo foi vir escrever sobre a história, que não é fácil de ser transcrita.


"O amor dos homens avulsos" possui uma escrita ácida e madura, que exige do leitor, se este for como eu, uma atenção ou até mesmo cuidado ao ler os versos escritos quase em tom de poesia e desabafo. Camilo, o narrador, já velho, joga seu sentimento a mordaça, sem pena de si e do leitor, sem pedir licença afunda-nos numa pequena depressão, sem dó. Então ele fala sobre o melhor momento de sua vida: a infância, o primeiro amor; e também sobre como aquilo mudou sua vida para sempre e, talvez, tenha tornado embuste e solidão na velhice.


Durante as páginas conhecemos três personagens principais, para mim, um é Camilo, quem narra; Cosme, o sofredor da narrativa e uma criança. Creio que a inserção deste terceiro seja para dizer o passado do narrador, ao se deparar com uma criança Camilo divaga sobre a própria juventude, os meninos do bairro e seu amor por Cosme. E a escrita de Heringer me pegou novamente, porque a forma que os personagens foram escritos fez com que eu criasse, não sei dizer, mas, talvez, uma visão abstrata de tudo o que ele passou - ao mesmo tempo que sentia uma coisa, não parecia ser nada daquilo. E eu adorei essa perspectiva inconclusiva que me pegou de surpresa.
“Um tédio as pessoas. Os artistas de TV, os filmes de ficção científica e novelas de mistério, os napoleões, os puladores de ponte e os poetas tristes…São todos só o negativo do mesmo tédio, reverso duma moeda que sempre foi fosca, puta que me parola!, que a vida de um é tudo igual à vida do outro, só muda o endereço. E não tem tanto elemento assim no universo, todos catalogáveis. Da concha ao bombardeio de Gaz tem pouca mudança. Ouve só, bomba e onda tem um marulho parecido. Entre um homem e um rato, tem somente trezentos genes de diferença. Lembro que li um dia: um exército de macacos teclando a esmo em máquinas de escrever uma hora vai acabar escrevendo um livro do Shakespeare”
E não é preciso ter medo de não conseguir terminar o livro por ele ser escrito dessa maneira tácita, que mal consigo explicar (e talvez não precise ser explicada), porque é uma leitura gratificante e compreensível na sua forma, que deixa ainda alguns dias após o término aquela maldita ressaca literária – por isso demorei a escrever esta resenha, por não saber como descrever. É recomendado, porque vale a pena.

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