Catador de girinos em poças de lama

17 Mar 2017

​Esse é mais um daqueles textos de infâncias-do-igor-que-não-muda-a-vida-de-ninguém, mas que escrevo para não apagar da memória.

Semana passada, decidi dormi um pouco mais tarde num dos dias pra assistir um filme, logo não sabia que a escolha poderia ser horrível. Vou contar duas situações: a que aconteceria comigo se estivesse dormido cedo e a que realmente aconteceu. Se eu tivesse dormido cedo, estaria menos cansado no outro dia, estaria bem linda na minha casa no primeiro sono, debruçada na cama com o edredom entre as pernas e um dos braços debaixo do travesseiro, porque é geladinho. A segunda situação foi a seguinte, após o filme, Ninfomaníaca, decidi ir ao banheiro para dar aquela velha mijada da madrugada e eu não sei vocês, mas eu sento no vaso para mijar - e foi uma sensação muito gostosa, porque segurei o xixi durante todo o filme (sendo que eu poderia pausar), nos segundos finais da minha maravilhosa mijada sinto algumas patinhas gosmentas nas minhas costas. Bateu com força e ali ficou. E eu tremi. Gritei. Me mijei. E o bicho pulou na parede. E pulou em mim novamente. E eu gritei. E parede. E eu. E grito. E perereca? Era sapo. Mutante. Mentira, tinha o tamanho do meu polegar, mas eu me tremi quando o bicho pulou em mim. Era guerra dentro do banheiro, eu com as calças abaixadas e o bicho pulando feito louco, um com medo do outro.

Era de madrugada e eu não poderia fazer muita coisa, parei de gritar e quebrar todo o banheiro, resolvi pegar o bicho com a mão, porque lembrei que fazia isso quando era criança. Lembro que uma vez, na piscina lá da chácara que tínhamos entrava de vez em quando alguns sapinhos e sempre os pegava com a mão enquanto meu primos saiam correndo ou se afogando na piscina com medo daquele bichinho magricelo; ainda mais novo, quando morava em outra cidade, havia várias poças d'água e dentro dessas poças haviam girinos: um ponto preto no barro com calda. Eu achava que era peixe. Mas era sapo. Crianças são tão bobas, como eu era inocente. Eu colocava meus tão sonhados peixes dentro de uma garrafa com água limpa e levava pra casa - minha mãe nunca gostou e eu nunca entendi o motivo, agora entendo, era sapo não peixe. E ela sempre jogava eles num lago que tinha perto de casa, enquanto eu ia brincar com os meninos da rua. Voltando a história peguei com a mão e senti uma gosma, um treco mole e estranho, fechei o punho para não pular na minha cara e fui de mansinho, pela cozinha, jogar o bicho no quintal, nessa altura já devia estar com as calças levantadas.

O bicho livre. Eu livre. Me lembrei da infância. Mas adulto também é bobo, fui pesquisar nas possíveis doenças transmissíveis por sapos (e não há nenhuma grave para sapos comuns) e também me banhar de álcool. Era frescura, eu sei. Mas eu não quero morrer. Naquele momento intimo, literalmente, da perereca e eu, lembrei da infância que não volta e senti uma nostalgia daquilo, do sapo, da piscina, da água gelada e barro. Percebi que quando a gente cresce, vamos perdendo a valentia, tornando-nos mais conscientes e mais medrosos.

Pegar a perereca na mão foi coragem, dormi feliz. Que tenha mais sapos no mundo.

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