11.12.16

Então lhe apresento o meu lado gay que você não conhece


Eu dedico esse texto a quem não me conhece, até mesmo para aqueles me conhecem de vista e me acham uma figura engraçada, desajeitada e que, para outros, claramente é apenas uma bicha louca por sexo. Apesar de estar falando que vou apresentar o meu lado gay, gostaria de deixar claro que é um título com apenas uma fachada de anúncio clicável, porque não há um lado, não há metade em ser. Sou totalmente gay ou não sou, simples assim. Então deixo a apresentação de um menino que passou por alguma histórias e que não procura nada além de se sentir bem consigo, com as pessoas em volta e com o mundo.



Vivemos com duas conclusões no mundo: a religiosa e a científica. Religiosamente somos uma abominação para Deus, o todo criador. Cientificamente somos doentes. Porém ninguém consegue explicar exatamente o que é ser gay e o porquê da nossa existência, com isso me surgem dúvidas: a primeira religiosa, se Deus é todo poderoso e bom, por que ele colocaria um pecado para ser carregado desde o berço à morte? E alguns me dizem: "Deus não é bom, ele é justo". Mas há justiça em nascer com essa "anomalia"? A segunda: por que eu simplesmente não consigo gostar de mulheres mesmo tentando?

Após um longo tempo de reflexão sobre o assunto e sobre aceitação do meu próprio eu, consegui, finalmente, ir contra as regras que o sistema impôs durante séculos, me declarei gay para os meus pais e amigos mais próximos, não tardou para o meu chefe descobrir e outras pessoas do meu trabalho e faculdade - nunca me senti tão bem em apresentar, por completo, quem ou o que sou. A gente simplesmente cansa uma hora de aparentar que é padrão, que estamos satisfeitos em esconder e que somos um erro.

E acreditem, durante muito tempo achei que fosse um erro. Implorei a Deus incontáveis vezes para não gostar de homens, para não me sentir excitado. Até que um dia já não quis lutar mais com esta batalha que eu sou, uma batalha que me matava diariamente e me atormentava durante as noites. Uma batalha que escondi calado, entre sussurros internos e choros, uma batalha que, se você não está dentro, não consegue compreender. 

Durante minha infância fui chamado de bichinha, viadinho e mulherzinha. Talvez as minhas características tenham vindo desde a minha infância, mas o pior não era ter sido chamado desses nomes, mas sim ter sido tratado diferente em relação a isso: como as outras crianças não quererem brincar com você; como você é taxado de diferente e esquisito ainda quando criança. Mas eu cresci, ufa. Me tornando adolescente apanhei algumas vezes na escola, e adivinhem, por andar rebolando e por ter a voz levemente fina. Eu não ando rebolando porque quero e bem, eu não poderia "fazer voz de macho" porque o meu corpo, ele simplesmente não queria fazer o que eu queria. Então surgiram na adolescência apelidos como baitoila, queima-rosca e "viado tem que morrer".

Eu pensava que tinha que morrer, que era errado e que jamais iria ser aceito dentro da minha casa, onde meus pais são autoritários e religiosos.  Por isso namorei com meninas, pensei que poderia me enganar ao levá-las para cama e que os carinhos femininos poderiam me fazer tão bem quanto a presença de alguém do mesmo sexo. Foram incontáveis namoros e nunca compreendia o que realmente me faltava. Até que um dia fui beijado por outro rapaz, então compreendi que era aquilo mesmo: eu era a minha negação e a negação era minha felicidade.

E vocês não sabem o quanto eu consegui me senti confortável, bem e feliz naquele momento. Mas vocês também não sabem como os meses após aquilo me atormentaram, me deixaram para baixo: "como vou falar para os meus pais?", "será que um dia poderei beijar igual aquela menina beija aquele menino?" ou "será que vou ser feliz?". Foram incontáveis dúvidas, noites mal dormidas, choros e leituras. Então um dia decidi contar as meus pais. E, para minha surpresa, eles me aceitaram e me acolheram de uma forma que não imaginei, contei a amigos de infância que me abandonaram após e então pude compreender um pouco mais sobre como funciona o mundo: alguns aceitam outros não, mas ninguém, se não estiver na pele, consegue entender. 

A única coisa que quero é amar sem limitação, sem parecer uma aberração ou estar doente, sem as pessoas acharem que sou um portador de HIV ou que tenho fogo no rabo. Eu quero ter a liberdade de sair de mãos dadas, de poder estar bem comigo mesmo e ser feliz.

obs: não vamos para o inferno, porque o arco-íris fica no céu.

16 comentários

  1. Nossa, que texto, que emoção! Me identifiquei bastante porque também vivo dessa forma só que ainda não contei aos meus pais. Adorei! <3

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nossa Adeeeeh! Espero que você consiga contar aos seus pais e espero que tudo dê certo, qualquer coisa estou aqui para conversar <3

      Excluir
  2. Meus deuses, homem, que texto maravilhoso!
    Obrigado, mesmo, por compartilhar algo tão íntimo conosco, me faz pensar que, talvez, um dia não precisemos mais ter medo ou dúvidas de sermos aquilo que somos.

    Forte abraço! <3

    ResponderExcluir
  3. Ei
    Vim aqui -de olhinhos marejados- te dizer que li um texto no seu blog
    O primeiro deles (porque lembra que você disse pra eu não ler?), porque apareceu no feed do Instagram e eu vi.
    Fui no link e seu texto matou uma vontade que eu, como escritor, tinha de falar pro mundo!

    Você é demais. Serião!
    Gosto de como você é que nem eu nesse aspecto... crianção que fala com brilho nos olhos daquilo que gosta.

    Parabéns
    Parabéns milhões de vezes

    "não vamos para o inferno, porque o arco-íris fica no céu"

    Você é demais.

    ResponderExcluir
  4. As pessoas tem que aprender a respeitar o próximo e quebrar esse padrão de pensamentos e esteriótipos sobre isso ou aquilo.
    Você é um lindo e não me canso de falar isso. Seja você mesmo, seja feliz, seja feliz sendo você mesmo! Luz, paz e amor pra você :*

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que saudade de você MAJULINDA! Eu luto cada vez mais para que as pessoas nos enxerguem como somos por dentro e não pela imagem que a mídia propõe ou que foi ensinado, erroneamente, durante séculos. E não luto mais apenas por minha felicidade, obrigado pelo apoio. Obrigado por estar junto, mesmo que de longe <3! Isso é muito importante.

      Excluir
  5. Você é lndo! que texto <3
    Corajoso sim de expor os seus sentimentos e suas dores. Eu estou na luta com você (mesmo eu não sabendo por dentro o que é exatamente isso), mas apoio com muita força você!

    Obrigada por compartilhar algo tão íntimo, mas muito muito bom! Você vai ser feliz sim, acredite <3

    Você é demais!
    beijos :*
    japona.mairanamba.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nossa, que comentário mais lindo! Obrigado Maí, porque não é apenas a mim que você apoia, mas sim um monte de jovens e crianças que nascem assim, um pouquinho (quase nada) diferentes.

      Excluir
  6. Cara, há tempos não lia um texto tão íntimo, pesado, carregado e pleno igual a esse.
    Nunca mais nege-se, seja o que você é!
    Te conheço pouco, mas depois deste texto só quero ainda mais sua felicidade.
    Abraços

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu espero o mesmo de um tanto de pessoas que negam-se e não entendem que o importante é o que está dentro!!!11!

      Excluir
  7. Olá, Igor! Conheço seu blog já faz um tempinho, mas nunca havia tido a oportunidade de ler e comentar. Só tenha dizer a você depois desse post maravilhoso e sincero... EU TE ENTENDO!
    Não é fácil viver feliz nesse mundo tão opressor. Ter o apoio da família é algo fundamental. Infelizmente tenho ainda apenas a aceitação. Também sou de uma família religiosa e por conta disso cresci ouvindo coisas que entraram em mim e nunca mais saíram, o que destruiu parte de mim, meu senso de valor, minha auto estima.
    Espero um dia poder dizer que sou feliz com isso, mas enquanto isso, vamos vivendo como dá, né? :*

    ResponderExcluir
  8. Que texto mais profundo, ótimas reflexões. Representou bem como é ser gay, identifiquei-me nas suas angústias. Existe uma beleza na afirmação ao ter passado pela negação e depois poder se afirmar com mais legitimidade, pois as dificuldades podem ensinar bastante e mostrar o que se deseja de verdade.
    Legal que tenha se permitido deixar o arco-íris aparecer. :)

    ResponderExcluir

© setecoisas.com.