Resenha: "Ensaio sobre a Cegueira", de José Saramago

Ensaio sobre a Cegueira
José Saramago
Editora Companhia das Letras, 1995
310 Páginas
Ensaio Sobre a Cegueira - Um motorista parado no sinal se descobre subitamente cego. É o primeiro caso de uma "treva branca" que logo se espalha incontrolavelmente. Resguardados em quarentena, os cegos se perceberão reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem às trevas.

O "Ensaio sobre a cegueira" é a fantasia de um autor que nos faz lembrar "a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam". José Saramago nos dá, aqui, uma imagem aterradora e comovente de tempos sombrios, à beira de um novo milênio, impondo-se à companhia dos maiores visionários modernos, como Franz Kafka e Elias Canetti. Cada leitor viverá uma experiência imaginativa única. Num ponto onde se cruzam literatura e sabedoria, José Saramago nos obriga a parar, fechar os olhos e ver. Recuperar a lucidez, resgatar o afeto: essas são as tarefas do escritor e de cada leitor, diante da pressão dos tempos e do que se perdeu: "uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos".
Ensaio sobre a Cegueira era um daqueles livros obrigatórios do meu ensino médio, então de início senti um certo preconceito em ler ele - aquela velha ideia de que obrigação está ligada a chatice. Mas esse ano, enfim, resolvi dar uma chance a "novos" clássicos em minha vida literária e para minha alegria fui presenteado, novamente, com uma história incrível e uma narrativa impecável.



Essa leitura me deixou um tanto quanto incomodado e reflexivo, em meio as páginas me senti um pouco introspectivo em relação a algumas cenas. Temos aqui mais um autor com cede de debruçar através de ironia e sutilidade as carapaças da sociedade moderna; por meio de uma epidemia que cega milhares de pessoas com uma velocidade enorme observamos as destrezas, perdições e pecados que o homem poderá fazer para conseguir se "salvar", se eu pudesse resumir o livro após metade dele, ou melhor, após a cegueira atingir grande parte das pessoas, é "selva". Aqui os antagonistas estão como nos jogos vorazes, querer sobreviver além de tudo e não ter piedade ao próximo e em contrapartida os nossos protagonistas estão trabalhando como oposição a vandalismo e destruição, tudo bem que eles têm uma peça no xadrez, a mulher do médico (que não perdeu a visão), mas ali o pequeno grupo que se destaca desde o início do livro se mantêm unidos e lutam para sobreviver.


Em meio a todo esse caos somos capazes de sentir o insistindo de sobrevivência do homem e do que ele é capaz de fazer, além da ganância pelo poder - a cede do homem para querer liderar e gerir suas próprias leis e, claro, o incomodo em saber que no final de tudo você não é nada; nem dinheiro, nem fama, nem status fará diferença já que o mundo está cego. A mulher do médico a única "privilegia" com a visão em todo o caos nos mostra “a importância de se ter olhos quando os outros já os perderam”. A capacidade de ver, e não só olhar, de reparar, e não apenas ver. Níveis de visão que são esquecidos por nós, que olhamos sem ver, que vemos sem enxergar.


Ensaio sobre a Cegueira contém um jeito um tanto quanto, digamos, estranho de ser narrado. Encontramos uma nova forma gramatical de escrever aqui, José Saramago, de início espanta o leitor com sua escrita corrida e continua, mas logo acostumados com esse novo tipo de leitura - vale ressaltar que essa particularidade foi regida pelo autor quando a obra foi publicada aqui no Brasil mantendo a originalidade do autor -, afinal, somos apresentado a personagens fascinantes e que conquistam o leitor de alguma forma, apesar dos personagens no livro serem chamados pelos próprios nomes, eles são apelidados por aquilo que eles realmente são ou pelo o que os caracterizam (vestimentas ou personalidades) marcando, dessa forma, o ser humano que é a nossa sociedade de hoje.


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