Resenha: "A Cabeça do Santo", de Socorro Acioli

28 Apr 2015

A Cabeça do Santo
Socorro Acioli
Companhia das Letras
176 páginas
Pouco antes de morrer, a mãe de Samuel lhe faz um último pedido: que ele vá encontrar a avó e o pai que nunca conheceu. Mesmo contrariado, o rapaz cumpre a promessa e faz a pé o caminho de Juazeiro do Norte até a pequena cidade de Candeia, sofrendo todas as agruras do sol impiedoso do sertão do Ceará.

Ao chegar àquela cidade quase fantasma, ele encontra abrigo num lugar curioso: a cabeça oca e gigantesca de uma estátua inacabada de santo Antônio, que jazia separada do resto do corpo. Mas as estranhezas não param aí: Samuel começa a escutar uma confusão de vozes femininas apenas quando está dentro da cabeça. Assustado, se dá conta de que aquilo são as preces que as mulheres fazem ao santo falando de amor.
Seu primeiro contato na cidade será com Francisco, um rapaz de quem logo fica amigo e que resolve ajudá-lo a explorar comercialmente o seu dom da escuta, promovendo casamentos e outras artimanhas amorosas. Antes parada no tempo, a cidade aos poucos volta à vida, à medida que vai sendo tomada por fiéis de todos os cantos, atraídos pelo poder inaudito de Samuel. Em meio a esse tumulto, ele ainda irá se apaixonar por uma voz misteriosa que se destaca entre as tantas outras que ecoam na cabeça do santo.
Quando A cabeça do Santo foi lançado não senti tanta necessidade em ler, mesmo achando a capa minimalista e linda. De fato, não foi a capa que me fez ler o livro, mas sim ao ouvir em um dos eventos que teve aqui em Brasília, o quanto esse livro era divertido e, além de tudo, nacional. Confira agora, o motivo deu estar recomendando esse livro!


A Cabeça do Santo já começa com a vida miserável de Samuel, após a perda da velha mãe, segue em rumo a uma cidade no meio do nada, a tal Candeia. Antes de morrer sua mãe lhe implora para que ele acenda uma vela para o Padre Cícero, e outra na estátua de São Francisco de Canindé em seu nome, e por último outra vela aos pés de Santo Antônio - o desgraceiro. Além das velas, Mariinha, mãe de Samuel, também pede que ele procure seu pai e sua avó paterna, mas ele nutre um sentimento de ódio pelo pai, pois o abondando lhe causou grandes dores. Para realizar o último desejo de sua falecida mãe, o nosso protagonista parte em sua saga, após passar fome, sede e andar debaixo de mais de uma dúzia dias, também ganha como brinde o asco de sua avó. Como não teria lugar para dormir ou descansar, ele decide se alojar no primeiro lugar que encontra, uma espécie de gruta, que mais tarde ele saberia que se tratava de uma cabeça oca de um santo, um santo desgracento.

A partir disso, sua vida começa a mudar, ao ouvir vozes enquanto esta na cabeça do santo, ele percebe que são várias mulheres fazendo orações, rezes e pedidos de casamento - logo o safado vê a oportunidade de ganhar uma boa fortuna realizando os desejos da mulherada, agindo como o mensageiro do tal santo. Claro, desgraça vem e volta, será que Samuel conseguiria manter a mentira, ou será que a doce e adorável voz que ele se apaixona estará tão perto quanto ele imagina?


Contado totalmente em terceira pessoa, Acioli sai da defensiva e expõe uma narrativa deliciosa e ao mesmo tempo, crua, algo com estilo mas ao mesmo tempo bagunçado, poderia chamar de único. De começo, a estranhice de sua história já pega o leitor, mas é no miolo, bem no meio, que o leitor é realmente contagiado por pela a história e pelos personagens.

Ao mesmo tempo que esse livro é brusco, ele também consegue ser delicado: transborda sentimentalismo, mas de um jeito cheio de asco, dor e ódio. Sentimos de longe as asperezas de um homem, o quão ele pode ser malucado, o quanto as pessoas em sua volta também são ineficazes e cheias de esperanças a recorrer preces a um santo, daqui se constrói uma história - alguns fazem de tudo o que podem para querer algo, outros já se aproveitam de algumas situações.


Nessa história, a de Samuel, me lembrei de um livro que li há muitos anos, O Santo e a Porca, do conhecido Ariano Suassuna, uma peça teatral cheia de comédia e beleza pobre, que deixa qualquer um feliz por como tudo na história se encaixa e se une de um jeito engraçado e eficiente. Pude sentir o mesmo sentimento ao ler o livro de Acioli, uma nostalgia, uma felicidade e muitos risos - ah, como eu sentia falta de uma leitura assim. Claro, a comparação entre os livros de Suassuna e Acioli é bem distinta, um é uma peça e o outro uma literatura, mas o que os deixa igualizados é a essência da história, os personagens com seus costumes e, principalmente, o sentimento que está arranjando e elaborado em toda a façanha.


A Cabeça do Santo realiza uma tarefa pesada, em mostrar como algumas pessoas podem ser sem escrúpulos, além de mostrar uma cidadezinha pacata cheia de história, segredos de moradores, o poder da politicagem e a inocência mediante a história. É uma leitura leve, fluída e gostosa, recomendo para qualquer um que queria se aventurar pelos chãos nordestinos e também numa história divertidíssima.

1 comments:

  1. Saudade comentar aqui como leitor!

    Nossa, eu senti vontade de ler esse livro desde do evento também, mas gostei de saber sobre a historia, e saber que é um livro que te leva, acho bacana contexto nordestino, cultura brasileira retratada é tão boa quando se escreve bem, quero ler esse!

    Beijooos <3

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