Resenha: "Um instante de felicidade", de Federico Moccia

23 Mar 2017

Um instante de felicidade
Federico Moccia
Editora Planeta
352 páginas
O italiano Nicco enfrenta a passagem da adolescência para a vida adulta com muito mais sofrimento que seus amigos. Sua namorada terminou tudo com ele com um "sinto muito", sem dar nenhuma explicação, e seu pai acabou de morrer. Como o "homem da casa", ele precisa cuidar da mãe, que se entrega à tristeza pela morte do marido, e das duas irmãs que não conseguem se acertar com seus respectivos companheiros. Para dar conta de tudo, ele se divide entre dois empregos. Em meio a esse turbilhão de emoções e acontecimentos, Nicco conhece uma encantadora turista americana nas ruas de Roma e percebe que a vida é curta demais para ser desperdiçada com lamentos sobre o passado. Com a bela Ann, ele embarca numa aventura romântico-gastronômica pela Itália e redescobre seu norte com instantes de felicidade.


"Sinto muito". Foi assim que, mais uma vez, a vida deu a Nicco um tapa na cara. Após ter perdido o pai - a quem era muito apegado e amava absurdamente - foi essa a única frase que ouviu da agora ex-namorada, Alessia, que o deixou sem maiores explicações. Sentia uma saudade gigantesca do pai e sofria as consequências de agora ser o homem da casa, como a mãe e as irmãs não cansavam de chamá-lo e sempre cobrando-lhe atitudes que antes cabiam ao pai. Com toda a pressão e o fim do namoro com Alessia, definitivamente as coisas não andavam nada fáceis para Nicco.



Tendo que trabalhar o dia inteiro na banca da família pela manhã e em um escritório de imóveis pelo resto do dia, o tempo livre que lhe restava eram apenas aquelas horas horríveis que, após um fim de namoro, só eram ocupadas com pensamentos depressivos. Nicco martirizava-se recordando dos bons momentos com a ex e pensando em tudo que poderia ter feito diferente, principalmente, arrependia-se de tudo que não fez, do "eu te amo" nunca dito e das tantas declarações que, apesar de ser apaixonadíssimo, não foi capaz de fazer.

Sempre esperando uma ligação, e-mail, SMS, ou sinal de fumaça de Alessia, Nicco segue seus dias ouvindo as bobagens do amigo, Ciccio, e tentando resolver os problemas das irmãs, que decidiram que agora ele era o responsável até pelos relacionamentos amorosos mal resolvidos de ambas. Porém, em uma das andanças com Ciccio - que tinha duas namoradas fixas a quem enganava a mais de um ano -, conheceram duas belas entrangeiras, Raily e Ann, que apesar de quase não entenderem o que falavam, se deram bem de cara e passaram a curtir as férias com as duas como se também estivessem de férias, mostrando-lhes os melhores restaurantes e pontos turísticos de Roma.



Apesar de todo o drama que vivia, Nicco passa a viver pequenos "instantes de felicidade" e vê em Ann uma oportunidade de apreciar momentos leves, em que sorrir se tornava algo fácil de fazer. Em alguns momentos, enquanto lia, me senti frustrada pela comunicação ruim entre os dois. Ann muitas vezes declarava-se dizendo muitas palavras de amor e Nicco quase não compreendia e vice-versa. Apesar disso, em outros momentos, pude enxergar que a química entre os dois era tanta, que as palavras nem eram necessárias. Apesar da resistência de Nicco, Ann aos poucos vai quebrando as barreiras para chegar ao coração dele e é uma viagem muito gostosa de acompanhar. O final é daqueles que deixam mil questionamentos e pode ser interpretado ou imaginado de formas diferentes, mas acredito que deu um ar especial a história. Gosto de acreditar que Nicco foi capaz de se entregar e viver cada instante de felicidade, apesar de toda a tristeza ao seu redor.

Bloco de Notas III

20 Mar 2017


É a terceira vez que acontece: que sinto esse sentimento sofrido, sentimento de quem resolveu se entregar para o escuro, o novo e o inseguro. Um sentimento que caleja a pobre alma numa incerteza abrupta, que derruba os sentidos e constrange as certezas construídas durante o raciocínio lógico. Ao mesmo tempo que é ruim, é inquieto, é quente. Tem sabor. Nos beijos, nos olhares, nos abraços que afogam palavras não ditas – e que jamais serão ditas. Sofre do não saber o que o destino lhe pretende quando está longe, enquanto anseia pelo beijo sem fôlego, pelas costelas coladas.

Aprende, agora pela terceira vez, a se encaixar novamente no balançar de um peito com respiração calma e se acostumar com os sentimentos que contradizem, que perturbam e deixam consequências debaixo dos olhos. É intenso. É destruidor. Apavorante. Excitante. O beijo é bom, a conversa é gostosa de ouvir e o cheiro que afeta o meu, me deixa pedindo mais, contando os dias ao acordar e sonhos ao dormir.

Catador de girinos em poças de lama

17 Mar 2017

​Esse é mais um daqueles textos de infâncias-do-igor-que-não-muda-a-vida-de-ninguém, mas que escrevo para não apagar da memória.

Semana passada, decidi dormi um pouco mais tarde num dos dias pra assistir um filme, logo não sabia que a escolha poderia ser horrível. Vou contar duas situações: a que aconteceria comigo se estivesse dormido cedo e a que realmente aconteceu. Se eu tivesse dormido cedo, estaria menos cansado no outro dia, estaria bem linda na minha casa no primeiro sono, debruçada na cama com o edredom entre as pernas e um dos braços debaixo do travesseiro, porque é geladinho. A segunda situação foi a seguinte, após o filme, Ninfomaníaca, decidi ir ao banheiro para dar aquela velha mijada da madrugada e eu não sei vocês, mas eu sento no vaso para mijar - e foi uma sensação muito gostosa, porque segurei o xixi durante todo o filme (sendo que eu poderia pausar), nos segundos finais da minha maravilhosa mijada sinto algumas patinhas gosmentas nas minhas costas. Bateu com força e ali ficou. E eu tremi. Gritei. Me mijei. E o bicho pulou na parede. E pulou em mim novamente. E eu gritei. E parede. E eu. E grito. E perereca? Era sapo. Mutante. Mentira, tinha o tamanho do meu polegar, mas eu me tremi quando o bicho pulou em mim. Era guerra dentro do banheiro, eu com as calças abaixadas e o bicho pulando feito louco, um com medo do outro.

Era de madrugada e eu não poderia fazer muita coisa, parei de gritar e quebrar todo o banheiro, resolvi pegar o bicho com a mão, porque lembrei que fazia isso quando era criança. Lembro que uma vez, na piscina lá da chácara que tínhamos entrava de vez em quando alguns sapinhos e sempre os pegava com a mão enquanto meu primos saiam correndo ou se afogando na piscina com medo daquele bichinho magricelo; ainda mais novo, quando morava em outra cidade, havia várias poças d'água e dentro dessas poças haviam girinos: um ponto preto no barro com calda. Eu achava que era peixe. Mas era sapo. Crianças são tão bobas, como eu era inocente. Eu colocava meus tão sonhados peixes dentro de uma garrafa com água limpa e levava pra casa - minha mãe nunca gostou e eu nunca entendi o motivo, agora entendo, era sapo não peixe. E ela sempre jogava eles num lago que tinha perto de casa, enquanto eu ia brincar com os meninos da rua. Voltando a história peguei com a mão e senti uma gosma, um treco mole e estranho, fechei o punho para não pular na minha cara e fui de mansinho, pela cozinha, jogar o bicho no quintal, nessa altura já devia estar com as calças levantadas.

O bicho livre. Eu livre. Me lembrei da infância. Mas adulto também é bobo, fui pesquisar nas possíveis doenças transmissíveis por sapos (e não há nenhuma grave para sapos comuns) e também me banhar de álcool. Era frescura, eu sei. Mas eu não quero morrer. Naquele momento intimo, literalmente, da perereca e eu, lembrei da infância que não volta e senti uma nostalgia daquilo, do sapo, da piscina, da água gelada e barro. Percebi que quando a gente cresce, vamos perdendo a valentia, tornando-nos mais conscientes e mais medrosos.

Pegar a perereca na mão foi coragem, dormi feliz. Que tenha mais sapos no mundo.