Uma carta para nunca ser enviada

28 Aug 2016


São três horas da manhã, daqui a 30 minutos sei que não conseguirei mais manter meus olhos abertos. Depois de tanto pensar, de tanto imaginar e querer sentir - eu aceito dormir, cansado. Dormir tem sido uma salvação para acalmar o lado selvagem e a saudade, o beijo doce e a lágrima salgada.


Esse post pertence a este projeto, que é basicamente todo mês escrever uma carta de coração: falando de auto-descoberta, para alguém do passado ou um simples desabafo.

Resenha: "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão", de Martha Batalha

18 Aug 2016

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão
Martha Batalha
Editora Companhia das Letras, 2016
192 páginas
Guida Gusmão desaparece da casa dos pais sem deixar notícias, enquanto sua irmã Eurídice se torna uma dona de casa exemplar. Mas nenhuma das duas parece muito feliz nas suas escolhas.

A realidade das Gusmão é parecida com a de inúmeras mulheres nascidas no Rio de Janeiro nos anos 1920 e criadas para serem boas esposas. São as nossas mães, avós, bisavós; invisíveis em maior ou menor grau, que não puderam protagonizar as próprias vidas, mas que agora são as personagens principais do primeiro romance de Martha Batalha. Uma promessa da ficção brasileira que chega afiadíssima para contar uma infinidade de histórias bem costuradas e impossíveis de largar.
A história é centrada em Eurídice Gusmão, uma senhora carioca e de vida simples. Ao decorrer da trama, vamos descobrindo mais sobre o que se passa dentro da cabeça da dona de casa: suas dúvidas, arrependimentos e tentativas de fazer sua vida ser muito mais do que cuidar da casa e se preocupar com as fofocas do bairro. O leitor vai conhecendo, ao longo do livro, o passado de Eurídice, sua relação com os pais, com o marido, com os filhos e principalmente com sua irmã Guida, outra personagem central da história.

O livro é um caleidoscópio de histórias, onde conhecemos vários personagens do Rio de Janeiro do século XX, desde a história de pais, avós, vizinhos, até amores, dores, tristezas e angústias. Essa narrativa que nos apresenta diversos lados, destrói os muros de preconceito que o leitor possa ter com determinados personagens, uma vez que sabemos exatamente pelo que eles passaram e os acontecimentos em suas vidas que fizeram com que agissem de determinada maneira.

Além disso, outro ponto interessante na leitura é como um personagem influencia as ações de outro. O jogo criado pela autora, transforma todos os personagens da trama em peças de dominó, onde um se encaixa no outro, e o efeito dominó é garantido por relações familiares complexas e que definem o curso da existência um do outro. É possível dessa forma traçar um paralelo com nossas próprias relações familiares e sociais, sendo impossível não aplicar pontos do livro em sua vida real.

A escrita é doce e fluida, fazendo com que a leitura se pareça com uma história contada ao pé do ouvido. Momentos tristes, pesados e acontecimentos dramáticos são contados com tanta leveza que chega a se parecer com poesia. Uma história pungente e melancólica que atinge o leitor em cheio, já que guardadas as devidas proporções, podemos ser Eurídices em nosso próprio cotidiano, seguindo a vida como quem segue uma fila em linha reta, sem olhar para os lados ou seguir caminhos diferentes. Até que ponto deixamos os outros definirem nossa vida? Quando passamos a parar de pensar por nós mesmos para seguirmos o que a sociedade espera? Qual a importância da nossa individualidade em meio a tantas outras pessoas?

Antes mesmo do livro ser lançado no Brasil ele já era um sucesso lá no exterior. A autora vendeu os direitos para várias editoras internacionais, depois de ter sido rejeitada por várias brasileiras. Após o sucesso estrondoso lá fora, o livro finalmente teve o tratamento que merece, em uma edição belíssima da Cia das Letras, impecável da qualidade gráfica a revisão.

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão é uma história que irá emocionar, te fazer refletir sobre vários aspectos da vida, torcer pelos personagens e principalmente: esperar ansiosamente pelo próximo livro da autora, que se seguir contando histórias, será uma das vozes mais importantes da literatura contemporânea.


Resenha: "Violent Cases", de Neil Gaiman e Dave Mckean

16 Aug 2016

Violent Cases
Neil Gaiman e Dave Mckean
Editora Aleph
64 páginas
A verdade e a confiabilidade das memórias são o fio condutor de Violent Cases, a primeira e famosa colaboração do escritor Neil Gaiman com o artista Dave McKean. Pressagiando muito do estilo e dos temas que ambos viriam a tratar em criações futuras, a graphic novel mistura ficção e realidade de forma tão singular quanto combina texto e imagem, e traz em seu cerne o poder e a magia de contar histórias. O protagonista nos conta que, quando tinha quatro anos e meio, uma altercação com o pai levou-o a um osteopata para tratar o braço. Este médico dos ossos, de procedência incerta, aparência imprecisa e passado nebuloso, é o pivô das memórias do narrador que, mesmo sem muita segurança, entrelaça os mundos de violência na família, das festas infantis e dos famosos gângsters do período da Lei Seca.


Essa foi minha primeira relação com quadrinhos, depois dos almanaques da Turma da Mônica, claro. E não estou nenhum pouco desapontada. Foi completamente novo ler uma história ilustrada adulta e de uma ilustração tão rica, quase como fotografias. Meu primeiro contato com uma graphic novel e garanto, estou apaixonada. Em pouquíssimas páginas é possível captar a história contada por um jovem adulto, sobre vivências suas de quando tinha apenas quatro anos de idade, de um ponto de vista muito inteligente, Neil relatou como nossa memória de histórias vividas a muitos anos consegue ter diversas perspectivas por não conseguirmos recordar os momentos como realmente aconteceram, a ideia de que não sabermos se são memórias ou apenas coisas criadas por nossa imaginação que acabamos transformando em fatos é muito interessante e nos faz refletir sobre recordações que nós mesmo temos. Ou criamos.





A criança da história conta sua experiência ao precisar dos cuidados de um osteopata após ter o braço quebrado pelo pai, assim como, sua relação conturbada com o autor do seu acidente e as muitas curiosidades sobre os gângsters da época, citando o famoso Al Capone. As ilustrações também merecem bastante atenção, riquíssimas em seus detalhes e muitas vezes me prendia em minutos olhando cada pontinho apresentado, ligando a história a imagem.




A história logo chega ao fim e em um "sentar pra ler", como eu costumo chamar, deixando um gostinho de quero mais enorme. A parceria de Neil e Dave deu tão certo que pretendo ler tudo que os dois fizeram juntos e se você é amante de quadrinhos ou tem o desejo de começar a ler algo, indico essa leitura sem medo de decepcionar.